Observação clínica

Como calcular o bolus de dextrose a 10%: fórmula e exemplo

relogio Atualizado em 6 de outubro de 2026
Beldo Celestino Saraiva
Revisão: Beldo Celestino Saraiva
Formado no curso: Técnico de enfermagem geral

Atenção: este cálculo é um apoio educativo e deve ser conferido com a prescrição, o protocolo da instituição e a bula do medicamento. Não use o resultado como única referência para preparar ou administrar medicamentos.

Calcular o bolus de dextrose a 10% é uma das contas mais frequentes e mais sensíveis no atendimento da hipoglicemia grave em crianças e recém-nascidos. Um erro de unidade ou de diluição pode significar pouca glicose para quem precisa de correção imediata, ou excesso de volume e de osmolaridade para um paciente pequeno.

Neste artigo você vai entender a fórmula, ver um exemplo passo a passo, saber como obter a concentração de 10% a partir de D5% e D50% e usar uma calculadora que faz a conta a partir do peso em quilos.

O que é a dextrose a 10% (glicose a 10%)

Dextrose é o nome farmacêutico da glicose usada em soluções intravenosas. A concentração de 10% (D10%) significa 10 gramas de glicose para cada 100 mL de solução, ou seja, 0,1 g de glicose em cada mL. É uma solução hipertônica: tem mais partículas dissolvidas do que o sangue, e por isso exige acesso venoso bem posicionado e vigilância durante a infusão.

A D10% é preferida em pediatria e neonatologia porque é menos irritante para a veia do que a D50% e permite ajustar a dose com mais segurança. A glicose a 50% é muito concentrada e, em crianças, não deve ser administrada pura.

Quando o bolus de dextrose é indicado

A hipoglicemia é, em geral, definida por glicemia abaixo de 70 mg/dL (3,9 mmol/L). Quando o paciente está consciente e consegue engolir, o tratamento é por via oral, com 15 a 20 g de carboidrato simples e nova medida da glicemia após 15 minutos (a chamada “regra dos 15”).

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o manual reúne "diretrizes clínicas relevantes, atualizadas e baseadas em evidências" WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2013

O bolus intravenoso é reservado para a hipoglicemia grave: paciente inconsciente, com convulsão, com alteração importante do nível de consciência ou sem condição de receber nada pela boca. Quando não há acesso venoso, o glucagon por via intramuscular ou subcutânea é uma alternativa, conforme o protocolo local. A decisão de tratar, a dose e a via são sempre do médico ou do protocolo institucional.

A fórmula do bolus de dextrose a 10%

O cálculo parte do peso do paciente e de uma dose expressa em mL/kg (e não em mg):

Volume de D10% (mL) = peso (kg) × dose (mL/kg)

As doses mais citadas em pediatria, como no manual de cuidados hospitalares da Organização Mundial da Saúde, são:

Paciente Dose de D10% Glicose por kg
Recém-nascido 2 mL/kg 0,2 g/kg
Lactente e criança 5 mL/kg 0,5 g/kg

Em crianças maiores, o volume não deve passar de 250 mL (25 g de glicose) em uma única dose. Em adultos, a conduta costuma ser por volume fixo definido em protocolo (por exemplo, 100 a 200 mL de D10% ou 25 g de D50%) e não por peso, por isso a calculadora abaixo limita o resultado e deve ser usada com atenção nessa faixa.

Cálculo de bolus dextrose a 10%

Exemplo passo a passo

Uma criança de 18 kg está com hipoglicemia grave e a prescrição é de 5 mL/kg de D10%.

Repare que a conta final é em mL. Escrever “18 kg × 5 mg = 90 mL”, como se vê em alguns materiais, mistura unidades e é uma fonte clássica de erro.

Como obter D10% a partir de D5% e D50%

O ideal é usar a bolsa de D10% pronta ou preparada pela farmácia. Se o protocolo da instituição prevê a mistura, a proporção correta é de 1 parte de D50% para 8 partes de D5%. Veja a conta: (8/9 × 5%) + (1/9 × 50%) = 4,44% + 5,56% = 10%.

No exemplo de 90 mL: D50% = 90 ÷ 9 = 10 mL e D5% = 90 − 10 = 80 mL. Uma divisão de 90% de D5% com 10% de D50% parece próxima, mas resulta em apenas 9,5% de glicose, e não em 10%.

Preparar soluções à beira do leito aumenta o risco de contaminação e de erro de diluição. Faça a dupla checagem dos frascos, rotule a seringa ou a bolsa e nunca administre D50% pura em crianças.

Leia também: as necessidades nutricionais das crianças.

Cuidados antes e durante a administração

Recém-nascidos: atenção redobrada

No período neonatal, o volume é menor (2 mL/kg) e a velocidade de infusão é mais lenta. Boluss rápidos ou excessivos de glicose podem causar hiperglicemia e variações bruscas de osmolaridade. Em geral, o bolus é seguido de uma infusão contínua de glicose ajustada pela glicemia. Siga o protocolo da unidade neonatal e confirme o cálculo com um segundo profissional.

Erros comuns no cálculo

Por que a hipoglicemia grave precisa de correção rápida

O cérebro depende da glicose como principal fonte de energia e tem pouca reserva própria. Quando a glicemia cai demais, aparecem sintomas de alerta, como suor frio, tremores, palpitações e fome intensa, seguidos de sinais neurológicos, como confusão, sonolência, convulsão e coma. Em crianças pequenas e recém-nascidos, os sinais podem ser discretos: irritabilidade, sucção fraca, hipotonia, choro anormal ou apenas recusa alimentar.

Quanto mais tempo o cérebro fica sem glicose, maior o risco de lesão. Por isso, o reconhecimento precoce, a medida da glicemia capilar e um cálculo rápido e correto da dose fazem diferença real no desfecho do paciente.

Como as diretrizes classificam a hipoglicemia

As diretrizes atuais da Associação Americana de Diabetes classificam a hipoglicemia em três níveis: nível 1, glicemia abaixo de 70 e igual ou acima de 54 mg/dL; nível 2, abaixo de 54 mg/dL; e nível 3, qualquer valor associado a alteração mental ou física que exija ajuda de outra pessoa. O bolus intravenoso de dextrose costuma ser pensado para os casos de nível 3 ou quando a via oral não é possível.

Perguntas frequentes

Qual é a dose de dextrose a 10% para criança?

Uma referência bastante usada é 5 mL/kg de D10% (0,5 g/kg), em bolus, com reavaliação da glicemia em cerca de 15 minutos. A dose final é sempre a do protocolo ou da prescrição.

Posso usar a calculadora para adultos?

A conduta em adultos costuma seguir volumes fixos de protocolo e não o peso. A calculadora limita o resultado a 250 mL e serve apenas como apoio educativo.

Como transformar D50% em D10%?

Misturando 1 parte de D50% com 8 partes de D5%. Para cada 90 mL de D10% são 10 mL de D50% e 80 mL de D5%, sempre conforme o protocolo da instituição.

Quanto tempo depois do bolus devo medir a glicemia?

Em geral, cerca de 15 minutos depois, repetindo a medida até a estabilização e conforme o protocolo local.

Qual é a diferença entre D5%, D10% e D50%?

A diferença é a quantidade de glicose por volume: 5 g, 10 g e 50 g em cada 100 mL, respectivamente. Quanto maior a concentração, maior o risco para a veia e para o paciente pequeno.


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