Malária: sinais e sintomas, causas, prevenção e o tratamento da malária
Formado no curso: Técnico de enfermagem geral
A malária é uma doença infecciosa grave causada por parasitas do gênero Plasmodium, transmitidos pela picada da fêmea infectada do mosquito Anopheles. É uma das doenças tropicais mais conhecidas do mundo e continua sendo um grave problema de saúde pública, especialmente na África Subsaariana.
Em resumo: a malária provoca febre alta, calafrios e dores no corpo, é transmitida por mosquitos (não de pessoa para pessoa) e tem tratamento eficaz quando diagnosticada a tempo mas pode ser fatal se não tratada, principalmente quando causada pelo Plasmodium falciparum.
O que é a malária e o que a causa
O agente causador da malária é um protozoário unicelular do gênero Plasmodium. Das cerca de 120 espécies conhecidas, apenas 5 infectam seres humanos:
- Plasmodium falciparum a espécie mais perigosa, predominante no continente africano e responsável pela maior parte das mortes;
- Plasmodium vivax amplamente distribuído, inclusive nas Américas;
- Plasmodium malariae;
- Plasmodium ovale;
- Plasmodium knowlesi mais comum no Sudeste Asiático.
Como a malária é transmitida
A principal via de transmissão é a picada da fêmea do mosquito Anopheles infectada. Outras formas, bem mais raras, incluem:
- Transfusão de sangue contaminado;
- Compartilhamento de agulhas ou seringas infectadas;
- Transmissão da mãe para o bebê durante a gravidez ou o parto (malária congênita);
- Transplante de órgãos contaminados.
Importante: a malária não é transmitida por contato direto entre pessoas, nem por alimentos, água ou objetos compartilhados.
Período de incubação
Os sintomas costumam surgir entre 7 e 30 dias após a picada, variando conforme a espécie de Plasmodium envolvida.
Sintomas da malária
Os sintomas mais comuns da malária são:
- Febre, geralmente cíclica e acompanhada de calafrios intensos;
- Calafrios e sudorese excessiva, típicos após a queda da febre;
- Dor de cabeça, de intensidade moderada a forte;
- Cansaço e fraqueza, causados pela destruição de glóbulos vermelhos;
- Dores musculares e articulares;
- Náuseas e vômitos, mais frequentes em crianças;
- Anemia, decorrente da destruição das hemácias pelo parasita.
Sinais de alerta de malária grave
Procure atendimento médico imediatamente se houver: confusão mental, convulsões, dificuldade para respirar, urina escura, sangramentos, icterícia (pele/olhos amarelados) ou perda de consciência. Sem tratamento, a malária pode evoluir para malária cerebral, insuficiência renal, coma e morte sobretudo nas infecções por P. falciparum.
Como é feito o diagnóstico da malária
Exame microscópico e testes rápidos (TDR)
- Gota espessa (exame microscópico): é o método padrão-ouro, capaz de identificar o parasita mesmo em pequenas quantidades de sangue.
- Esfregaço delgado: identifica a espécie de Plasmodium e a densidade parasitária.
- Teste rápido (TDR): detecta antígenos como HRP-2 e LDH a partir de uma gota de sangue capilar, com resultado em 15 a 20 minutos.
Exames complementares
Não confirmam a malária, mas ajudam a avaliar a gravidade:
| Exame | O que avalia |
|---|---|
| Hemograma | Anemia, plaquetopenia, leucopenia |
| Função hepática | Transaminases e bilirrubinas elevadas |
| Função renal | Ureia e creatinina elevadas |
| Glicemia | Risco de hipoglicemia |
| Gasometria | Acidose metabólica |
| PCR | Detecta DNA do parasita mesmo em baixa parasitemia (uso em pesquisa/referência) |
| Sorologia | Útil em estudos epidemiológicos, pouco útil na fase aguda |
Diagnóstico diferencial
A malária pode ser confundida com:
- Gripe: febre, calafrios, mialgia, tosse; hemograma costuma mostrar linfocitose sem anemia.
- Sarampo: febre, conjuntivite, manchas na pele, lesões de Koplik; leucopenia no hemograma.
- Amigdalite: febre e dor ao engolir; leucocitose isolada.
- Meningite: febre, rigidez de nuca; diagnóstico confirmado por exame do líquor.
- Gastroenterite/intoxicação alimentar predomínio de diarreia, náuseas e vômitos.
- Febre tifoide: febre associada a sintomas gastrointestinais e bradicardia relativa.
- Sepse: extremidades quentes, possíveis exantemas.
Ciclo de vida do Plasmodium e fisiopatologia
O ciclo do Plasmodium tem duas fases:
- Fase sexuada (esporogonia) ocorre dentro do mosquito.
- Fase assexuada (esquizogonia) ocorre no ser humano, dividida em:
- Esquizogonia exo-eritrocitária (ou pré-eritrocitária): multiplicação no fígado, dentro dos hepatócitos;
- Esquizogonia eritrocitária: desenvolvimento do parasita dentro das hemácias.
Durante a infecção por P. falciparum, as hemácias sofrem alterações que explicam a gravidade da doença:
- Surgem protuberâncias na superfície da hemácia, expondo uma proteína aderente;
- Essa proteína faz a hemácia grudar no endotélio de capilares e vênulas (citoaderência);
- Isso bloqueia pequenos vasos, causando isquemia e falta de oxigênio nos tecidos;
- Hemácias infectadas também aderem a hemácias saudáveis, formando "rosetas" e agregados;
- O resultado é o sequestro de hemácias em órgãos como cérebro, rins, fígado, pulmões e intestino — o mecanismo por trás das complicações graves da malária.
Classificação: malária não complicada x complicada
- Malária não complicada: forma sintomática, sem sinais de gravidade nem disfunção orgânica.
- Malária complicada/grave: infecção por P. falciparum com sinais de complicação ou disfunção orgânica vital. É uma emergência médica: o tratamento deve começar sem esperar confirmação laboratorial.
Complicações da malária
- Malária cerebral: ocorre quase só com P. falciparum; hemácias infectadas obstruem capilares cerebrais, causando edema, inflamação e lesão cerebral.
- Anemia: resulta da destruição das hemácias pelo parasita e pelo próprio sistema imunológico.
- Hipoglicemia: mais comum em gestantes e crianças; o parasita consome glicose e o fígado reduz sua produção: o uso de quinina/quinidina pode agravar o quadro.
- Insuficiência renal aguda: ligada à destruição maciça de hemácias e liberação de hemoglobina livre, que lesiona os túbulos renais.
Tratamento da malária
No Brasil, o tratamento da malária segue o Guia de tratamento da malária no Brasil, do Ministério da Saúde, e varia de acordo com a espécie de Plasmodium, a gravidade do quadro e características do paciente (gestantes, crianças, peso corporal).
Malária não complicada por P. vivax ou P. ovale
O objetivo é eliminar tanto a forma sanguínea quanto a forma hepática do parasita (cura radical), prevenindo recaídas. O esquema padrão é:
- Cloroquina por 3 dias, associada a
- Primaquina por 7 dias (esquema curto, dose diária) ou por 14 dias (esquema longo, dose menor por dia)
Uma alternativa mais recente é a tafenoquina em dose única, associada à cloroquina por 3 dias esquema mais simples, mas que exige teste prévio da enzima G6PD e não pode ser usado por gestantes, menores de 16 anos ou pessoas com baixa atividade de G6PD.
Malária não complicada por P. malariae
Tratamento com cloroquina por 3 dias, sem necessidade de primaquina.
Malária não complicada por P. falciparum
Tratamento com uma combinação de derivados de artemisinina (ACT) por 3 dias Arteméter + Lumefantrina ou Artesunato + Mefloquina associada a uma dose única de primaquina para eliminar os gametócitos e reduzir a transmissão.
Gestantes, puérperas até 1 mês de amamentação e crianças menores de 6 meses não recebem primaquina fazem apenas o ACT.
Malária mista (P. falciparum + P. vivax ou P. ovale)
Tratamento com ACT (Arteméter + Lumefantrina ou Artesunato + Mefloquina) por 3 dias, associado a primaquina por 7 dias para tratar também a forma hepática do P. vivax/P. ovale.
Cuidados especiais
- Gestantes: não usam primaquina em nenhuma hipótese; nas infecções por P. vivax/P. ovale, fazem cloroquina por 3 dias seguida de cloroquina profilática semanal até o fim do primeiro mês de amamentação;
- Crianças menores de 6 meses: também não recebem primaquina;
- Pacientes com mais de 120 kg: a dose de primaquina precisa de ajuste específico.
As doses exatas (mg/kg e número de comprimidos por faixa de peso) devem seguir sempre as tabelas oficiais do Guia de tratamento da malária no Brasil, do Ministério da Saúde, e a prescrição deve ser feita por profissional de saúde.
Malária grave/complicada
Independentemente da espécie, a malária grave é tratada com Artesunato injetável, o medicamento de primeira escolha tanto para adultos quanto para crianças — inclusive crianças com menos de 5 kg, com dose calculada especificamente por peso. É uma emergência médica: o tratamento deve começar imediatamente, sem esperar confirmação laboratorial, e o cálculo da dose deve ser feito por profissional de saúde com apoio de calculadoras de referência validadas.
Como prevenir a malária
- Usar mosquiteiro tratado com inseticida, corretamente instalado;
- Pulverizar o ambiente doméstico com inseticida (borrifação residual);
- Aplicar repelentes e usar roupas que cubram braços e pernas, principalmente ao anoitecer;
- Eliminar água parada ao redor de casa, onde o mosquito Anopheles se reproduz;
- Em áreas de risco, seguir orientação médica sobre profilaxia medicamentosa para viajantes.
Malária no mundo e em África: dados epidemiológicos
A malária é a doença parasitária mais difundida no mundo, concentrada em regiões tropicais e subtropicais. Segundo o Relatório Mundial sobre Malária 2025, da OMS, houve cerca de 282 milhões de casos e 610 mil mortes por malária em 2024 no mundo todo.
A Região Africana da OMS respondeu por 94% dos casos (265 milhões) e 95% das mortes (579 mil), com crianças menores de 5 anos e gestantes entre os grupos mais vulneráveis. Desde o ano 2000, estima-se que mais de 2,2 bilhões de casos e 12,7 milhões de mortes por malária foram evitados graças a avanços em prevenção, diagnóstico e tratamento.
A importância da saúde pública no combate à malária
O combate à malária depende da integração entre governos, profissionais de saúde e comunidades. Vigilância epidemiológica, diagnóstico precoce, distribuição de mosquiteiros, campanhas educativas e acesso ao tratamento são medidas essenciais para reduzir a incidência da doença. Educar a população sobre sintomas e prevenção permite identificar e tratar os casos mais rapidamente, reduzindo complicações e mortes.
Perguntas frequentes
A malária tem cura?
Sim. Quando diagnosticada e tratada a tempo com os medicamentos antimaláricos adequados, a malária tem cura na grande maioria dos casos.
A malária pega de pessoa para pessoa?
Não. A transmissão ocorre pela picada do mosquito Anopheles infectado. Contato direto, alimentos, água ou objetos compartilhados não transmitem a doença.
Quanto tempo depois da picada os sintomas de malária aparecem?
Geralmente entre 7 e 30 dias após a picada, dependendo da espécie de Plasmodium.
Qual é a espécie de malária mais perigosa?
O Plasmodium falciparum, predominante na África, é o mais associado a formas graves e à maior parte das mortes por malária.
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BIBLIOGRÁFICAS
- Organização Mundial de Saúde, (2020): Como se prevenir da malária. 6ª edição. Genebra: OMS. https://www.who.int/malaria
- Santos, Luiz F., Oliveira, Maria C, (2020): Como se prevenir da malaria, 6ª edição. São Paulo: Editora Saúde Global.
- Ministério de Saúde, Manual de Formação para o Manejo de Casos de Malária, Programa Nacional de Controlo da Malária, 2009
- Auto, Hélvio José de Farias e Colaboradores, Doenças Infecciosas e Parasitárias, editora Revinter, 2002
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